AULA 2: Enzimas – Fundamentos, Cinética e Aplicações Biotecnológicas

1. Introdução: O Papel Central das Enzimas na Biologia Molecular

As enzimas são catalisadores biológicos altamente específicos, essenciais para sustentar a vida. Elas aceleram reações químicas que, de outra forma, ocorreriam em escalas de tempo incompatíveis com a existência celular. Diferentemente dos catalisadores inorgânicos, as enzimas operam sob condições fisiológicas suaves de temperatura e pH, com notável especificidade por seus substratos e regulação complexa.

A atividade enzimática está no cerne de processos bioquímicos como respiração celular, replicação do DNA, síntese de proteínas e metabolismo energético. Além disso, alterações nos níveis ou na função das enzimas estão frequentemente associadas a estados patológicos. Assim, o entendimento da estrutura, função e cinética das enzimas é essencial para as ciências médicas e farmacológicas.

2. Estrutura e Mecanismo de Ação Enzimática

2.1 O Sítio Ativo e a Especificidade Catalítica

O sítio ativo é uma cavidade tridimensional específica da enzima onde o substrato se liga e sofre transformação química. Essa interação ocorre por meio de forças não covalentes, como ligações de hidrogênio, forças hidrofóbicas e interações iônicas.

Existem dois modelos clássicos para explicar o reconhecimento entre enzima e substrato:

  • Modelo chave-fechadura: propõe complementaridade estrutural rígida.

  • Modelo de ajuste induzido (Koshland): a enzima sofre alterações conformacionais ao interagir com o substrato.

2.2 Cofatores, Coenzimas e Grupos Prostéticos

Muitas enzimas requerem componentes adicionais para exercer sua atividade:

  • Cofatores inorgânicos: íons metálicos como Mg²⁺, Zn²⁺.

  • Coenzimas orgânicas: NAD⁺, FAD, Coenzima A – frequentemente derivados de vitaminas.

  • Grupos prostéticos: coenzimas firmemente ligadas à enzima (ex: grupo heme da catalase).

2.3 Classificação das Enzimas

A IUBMB classifica as enzimas em seis grandes classes:

  1. Oxidorredutases – reações de oxirredução

  2. Transferases – transferência de grupos funcionais

  3. Hidrolases – clivagem por adição de água

  4. Liases – adição/remoção de grupos sem hidrólise

  5. Isomerases – rearranjos intramoleculares

  6. Ligases – formação de ligações com gasto de ATP

3. Cinética Enzimática Clássica

3.1 Curva de Saturação e Equação de Michaelis-Menten

A cinética enzimática descreve a velocidade de uma reação catalisada em função da concentração de substrato. A relação hiperbólica entre velocidade (v) e [S] é descrita pela equação de Michaelis-Menten:

Onde:

  • Vmáx: velocidade máxima, quando todos os sítios ativos estão ocupados

  • Km: constante de Michaelis, concentração de substrato na qual v = ½ Vmáx

  • [S]: concentração de substrato

Box – Interpretação fisiológica: Km indica a afinidade da enzima pelo substrato: quanto menor o Km, maior a afinidade.

3.2 Parâmetros Catalíticos

  • kcat (número de recambio): número de moléculas de substrato convertidas por enzima por segundo, em saturação.

  • Eficiência catalítica: razão usada para comparar enzimas diferentes ou mutações.

4. Cinética Avançada e Regulação Enzimática

4.1 Fatores que Afetam a Atividade Enzimática

  • pH: altera ionização dos grupos ativos

  • Temperatura: aumenta a energia cinética até certo ponto (desnaturação > 40 °C)

  • [Substrato]: modula velocidade até a saturação

4.2 Enzimas Alostéricas e Cooperatividade

Enzimas alostéricas possuem múltiplos sítios de ligação e exibem curvas sigmoides, típicas de proteínas com cooperatividade (ex: hemoglobina). Podem ser ativadas ou inibidas por efetores alostéricos.

4.3 Regulação por Feedback

Produtos finais de vias metabólicas frequentemente atuam como inibidores alostéricos das enzimas iniciais, evitando sobreprodução (ex: ATP inibe PFK-1 na glicólise).

5. Inibidores Enzimáticos

5.1 Inibição Reversível

Competitiva

  • Compete com o substrato pelo sítio ativo

  • Aumenta Km, Vmáx inalterado

Não competitiva

  • Liga-se a outro local da enzima

  • Vmáx reduzido, Km inalterado

Acompetitiva

  • Liga-se apenas ao complexo enzima-substrato

  • Reduz Vmáx e Km

5.2 Inibição Irreversível

  • Ligação covalente ou destruição do sítio ativo

  • Ex: penicilina, que inativa transpeptidase bacteriana

Figura sugerida: Gráficos Lineweaver-Burk comparando os três tipos de inibição

6. Enzimas como Marcadores no Diagnóstico Clínico

A presença ou o aumento de enzimas específicas no plasma é utilizado como indicador de lesão tecidual:

EnzimaOrigemUso diagnósticoALT/ASTFígadoHepatites, necrose hepáticaCK-MBMúsculo cardíacoInfarto agudo do miocárdioTroponinasCoraçãoMarcador mais sensível para IAMLDHCoração, fígado, músculoHemólise, IAM, lesões teciduaisAmilase/LipasePâncreasPancreatite aguda

Box – Aplicação clínica: A elevação da CK-MB e da troponina I em conjunto é altamente específica para dano cardíaco.

7. Inibidores Enzimáticos na Farmacologia

7.1 Mecanismo de Ação de Fármacos Inibidores

  • AAS (aspirina): inibe irreversivelmente a COX-1 e COX-2 → reduz prostaglandinas

  • Estatinas: inibem a HMG-CoA redutase → reduzem colesterol

  • Inibidores da ECA: impedem conversão de angiotensina I em II

  • Inibidores da MAO: utilizados em depressão e Parkinson

  • Inibidores da DPP-4: prolongam ação do GLP-1 no diabetes tipo 2

7.2 Inibidores Alvo-dirigidos em Oncologia

  • Ex: inibidores de tirosina quinase como o imatinibe (Leucemia Mieloide Crônica)

Box – Curiosidade: Mais de 50% dos fármacos aprovados atuam modulando atividade enzimática.

8. Aplicações Biotecnológicas e Terapias Baseadas em Enzimas

  • Asparaginase: usada no tratamento da leucemia linfoblástica aguda

  • DNase recombinante: usada na fibrose cística para fluidificar secreções

  • Uroquinase e alteplase: enzimas fibrinolíticas no tratamento do AVC isquêmico

  • PCR e enzimas de restrição: ferramentas centrais em biologia molecular

9. Patologias por Deficiência ou Disfunção Enzimática

  • Fenilcetonúria: mutação na fenilalanina hidroxilase

  • Doença de Tay-Sachs: deficiência de hexosaminidase A

  • Galactosemia: deficiência de GALT

  • G6PD: causa hemólise sob estresse oxidativo

Essas condições são classicamente chamadas de erro inato do metabolismo.

10. Conclusão: Enzimas Como Centro Funcional da Medicina Molecular

As enzimas são muito mais do que catalisadores: são os “interruptores moleculares” que regulam a vida celular. O conhecimento profundo de sua estrutura, cinética e regulação fornece a base para a compreensão de processos fisiológicos, o diagnóstico laboratorial moderno e o desenvolvimento racional de fármacos. No cenário clínico e farmacológico contemporâneo, as enzimas deixaram de ser apenas alvos de estudo e tornaram-se instrumentos ativos de diagnóstico, terapia e inovação biomédica.

11. Questões de Revisão

  1. Explique o conceito de Km e sua relação com a afinidade da enzima pelo substrato.

  2. Diferencie inibição competitiva, não competitiva e acompetitiva quanto ao efeito nos parâmetros cinéticos.

  3. Cite três enzimas utilizadas como marcadores clínicos e seus respectivos tecidos de origem.

  4. Como as estatinas atuam na regulação do colesterol plasmático?

  5. Quais são os mecanismos pelos quais a temperatura e o pH afetam a atividade enzimática?

12. Glossário Técnico

  • Cinética enzimática: estudo da velocidade de reações catalisadas por enzimas.

  • Sítio ativo: região da enzima onde o substrato se liga e é transformado.

  • Cofator: componente não proteico essencial à atividade enzimática.

  • Km: concentração de substrato na qual a velocidade da reação é metade de Vmáx.

  • Inibidor enzimático: molécula que reduz ou bloqueia a atividade catalítica de uma enzima.