AULA 9: Cadeia Transportadora de elétrons e Fosforilação Oxidativa
1. Introdução
A cadeia transportadora de elétrons (CTE) e a fosforilação oxidativa constituem a etapa final da respiração celular aeróbica. Ocorrendo na membrana mitocondrial interna, esse sistema converte a energia dos equivalentes redutores (NADH e FADH₂) em ATP, a moeda energética universal das células. Essa etapa não apenas representa o maior rendimento energético da oxidação de combustíveis celulares, mas também estabelece o vínculo entre o metabolismo intermediário e a bioenergética celular.
2. Localização e Organização Geral
2.1 Membrana Mitocondrial Interna
A CTE está organizada em cinco complexos proteicos principais:
Complexo I (NADH desidrogenase)
Complexo II (succinato desidrogenase)
Complexo III (citocromo bc₁)
Complexo IV (citocromo c oxidase)
Complexo V (ATP sintase)
Entre os complexos, atuam transportadores móveis:
Ubiquinona (Coenzima Q ou CoQ): lipossolúvel, transporta elétrons entre complexos I/II e III.
Citocromo c: proteína periférica da membrana, carrega elétrons entre os complexos III e IV.
3. Fluxo de Elétrons na Cadeia Respiratória
3.1 Complexo I: NADH Desidrogenase
Oxida NADH a NAD⁺
Transfere 2 elétrons para a ubiquinona (CoQ)
Bombeia 4 prótons (H⁺) da matriz para o espaço intermembrana
3.2 Complexo II: Succinato Desidrogenase
Participa também do ciclo de Krebs
Oxida succinato a fumarato, gerando FADH₂
Transfere elétrons diretamente para a CoQ
Não bombeia prótons
3.3 Coenzima Q (Ubiquinona)
Aceita elétrons do complexo I e II
Transporta-os para o complexo III
3.4 Complexo III: Citocromo bc₁
Transfere elétrons da CoQH₂ para o citocromo c
Bombeia 4 H⁺ para o espaço intermembrana
3.5 Citocromo c
Transporta 1 elétron por vez entre os complexos III e IV
3.6 Complexo IV: Citocromo c Oxidase
Transfere elétrons do citocromo c para o oxigênio molecular (O₂), formando H₂O
Bombeia 2 H⁺ por par de elétrons
4. Gradiente de Prótons e Acoplamento Quimiosmótico
O fluxo de elétrons pelos complexos I, III e IV promove o bombeamento de prótons da matriz mitocondrial para o espaço intermembrana, gerando:
Gradiente de concentração de H⁺ (pH)
Gradiente elétrico (potencial de membrana)
Esse desequilíbrio eletroquímico constitui a força próton-motriz, que será utilizada para gerar ATP.
5. Fosforilação Oxidativa: ATP Sintase (Complexo V)
5.1 Estrutura
Subunidade F₀: canal transmembranar que permite o retorno dos H⁺ à matriz
Subunidade F₁: catalisa a formação de ATP a partir de ADP e Pᵢ
5.2 Mecanismo
O fluxo de prótons através da F₀ induz rotação da subunidade γ da F₁, promovendo mudanças conformacionais nas subunidades catalíticas (α, β), que possibilitam:
Captação de ADP + Pᵢ
Síntese de ATP
Liberação de ATP
Cada volta completa da F₁ gera 3 ATPs.
5.3 Eficiência Energética
Cada NADH mitocondrial rende ~2,5 ATPs
Cada FADH₂ rende ~1,5 ATPs
A oxidação completa da glicose pode render até 32-34 ATPs
6. Inibidores e Desacopladores
6.1 Inibidores Específicos
Rotenona e amital: inibem o complexo I
Antimicina A: bloqueia o complexo III
Cianeto, monóxido de carbono: inibem o complexo IV
Oligomicina: inibe a ATP sintase
6.2 Desacopladores
2,4-Dinitrofenol (DNP) e termogenina: dissipam o gradiente de H⁺ sem gerar ATP, convertendo energia em calor (termogênese)
7. Importância Fisiológica e Aplicações
Termorregulação: termogenina em mitocôndrias de tecido adiposo marrom (bebês, hibernadores)
Produção de ROS: fuga de elétrons gera espécies reativas de oxigênio
Doenças mitocondriais: mutações em genes da CTE afetam tecidos com alta demanda energética (cérebro, músculos, coração)
Alvo farmacológico: antibióticos, pesticidas e fármacos afetam seletivamente complexos da CTE.
8. Conclusão
A cadeia transportadora de elétrons e a fosforilação oxidativa são fundamentais para a conversão eficiente da energia química dos alimentos em ATP. Esse processo mitocondrial altamente regulado sustenta a vida aeróbica e integra metabolismo energético, sinalização redox e fisiologia celular. Alterações nessa via estão associadas a distúrbios metabólicos, envelhecimento, doenças neurodegenerativas e câncer, o que evidencia sua relevância biomédica e terapêutica.
Referências
Nelson, D. L., Cox, M. M. (2021). Lehninger: Princípios de Bioquímica. Artmed.
Berg, J. M., Tymoczko, J. L., Stryer, L. (2015). Bioquímica. Guanabara Koogan.
Voet, D., Voet, J. G. (2011). Biochemistry. Wiley.
Nicholls, D. G., Ferguson, S. J. (2013). Bioenergetics 4. Academic Press.



